Os aparelhos oferecem cada vez mais recursos baseados na internet móvel. Todo mundo adora. O problema é que a rede está ficando saturada
Quando os smartphones começaram a se popularizar, ainda no início dos anos 2000, muita gente tentava adivinhar quem dominaria um mercado tão promissor. Uma das principais candidatas era a Microsoft. O raciocínio era assim: se Bill Gates tem cerca de 90% do mercado de PCs – e os smartphones nada mais são do que computadores portáteis –, uma versão do Windows para celulares não daria chances para que outras empresas desenvolvessem sistemas melhores. Na filosofia, isso é conhecido como sofisma (um falso silogismo). Na sabedoria popular, é colocar a carroça à frente dos bois. Na vida real, uma empresa leva quase dez anos para fazer uma versão de um programa consagrado que realmente empolgue o mercado. Foi isso o que aconteceu com a Microsoft. Só na semana passada, durante o Mobile World Congress, maior feira de celulares do mundo, a empresa apresentou um sistema para celulares à altura de seu poder no mundo dos computadores.
Coube ao performático presidente da empresa, Steve Ballmer, a tarefa de apresentar o novo produto em Barcelona, na Espanha: o Windows Phone 7 Series. Novo, porque da versão antiga, o Windows Mobile 6.5, não sobrou grande coisa. “Vamos continuar trabalhando no 6.5, mas essa é uma geração totalmente nova”, disse Ballmer. Ninguém se arrisca a prever que o Windows Phone será um sucesso, até porque ele só chegará no final de 2010 aos primeiros aparelhos. E o mercado já está congestionado por outros sistemas atraentes para celulares, como os do iPhone, da Apple, ou o Android, desenvolvido pelo Google. Fora o WebOS, da Palm, e o MeeGoo, anunciado em parceria spor Nokia e Intel. Até a Samsung apostou no mercado e anunciou o Wave, seu primeiro celular com a plataforma própria, o Bada. A empresa coreana dará prêmios em dinheiro para quem desenvolver os programas mais populares para seus aparelhos.
Os lançamentos em feiras como o Mobile World Congress servem para apontar o futuro dos celulares. É um futuro cheio de recursos, caminhando para entretenimento e computação pesada, com a dependência plena na oferta de internet móvel (leia o quadro) . Telas com alta resolução e recursos gráficos do porte de computadores convidam o usuário de celular a baixar filmes inteiros ou ouvir músicas por streaming (download em tempo real). A outra onda é baixar programinhas que fazem coisas úteis ou divertidas, hábito popularizado pelo iPhone, hoje básico em qualquer sistema operacional que se preze. Apesar de ser um ótimo negócio para todos os fabricantes, a explosão no número de smartphones preocupa as operadoras móveis. Serão elas as responsáveis por prover acesso móvel e robusto para aparelhos avançados. Isso exige investimentos pesados em infraestrutura de equipamentos e redes, que várias empresas não estão dispostas a bancar sozinhas.
O cenário para a internet móvel no mundo já é preocupante. Há duas semanas, a revista The Economist fez uma comparação com a internet fixa. Em meados dos anos 90, início da popularização da internet comercial, o engenheiro de redes Bob Metcalf fez uma previsão apocalíptica. Em meio à explosão de vendas de computadores pessoais, Metcalf afirmava que as redes fixas entrariam em colapso brevemente, pois não haveria infraestrutura suficiente para aguentar tamanha demanda por banda. As interrupções de fato ocorreram, mas foram inexpressivas em relação ao sucesso da evolução da internet de lá para cá.
A teoria de Metcalf, hoje um capitalista de risco, voltou a circular nos corredores do Mobile World Congress. Desta vez, o surgimento de aparelhos superpotentes e a adoção de smartphones em massa já levaram ao limite as redes móveis em alguns lugares do mundo. Segundo um estudo da consultoria Bernstein Research, divulgado pela revista, em 2008 existiam cerca de 189 milhões de aparelhos com conexão móvel de banda larga, cada um com um consumo médio de 175 megabytes (MB) de dados por mês. No final de 2009, já eram de 312 milhões de aparelhos e 273 MB de uso mensal, um crescimento de 158% no consumo de dados, com crise financeira e tudo. E, segundo especialistas, o crescimento vai se acelerar.
Ironicamente, durante anos as operadoras deram incentivos e promoções para que seus clientes fizessem planos de uso ilimitado de acesso à internet. A operadora Claro, a primeira no Brasil a lançar o serviço de 3G, sofreu com isso no início de sua operação. No começo de 2009, a operadora suspendeu a venda de modems 3G, pois a rede instalada não aguentava o número de acessos simultâneos. No lugar da alta velocidade prometida, o usuário navega num ritmo dos tempos da internet discada. Nos Estados Unidos, quem sofreu foi a AT&T. A operadora se vangloriava da parceria com a Apple para o lançamento do iPhone. Não contava com a quantidade de pessoas que acessariam sua rede. O resultado foi um crescimento no consumo de dados de mais de 5.000% em apenas três anos, com a venda de inesperados 14 milhões de iPhones. A operadora conseguiu estancar problemas em sua infraestrutura com novos investimentos, mas pode não ser o suficiente caso o tablet iPad (outro bebedor de 3G), outra parceria com a Apple, faça sucesso similar ao do iPhone.
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